Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

PAUL BRUNTON NO HIMALAIA

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Fonte: Paul Brunton, Um Eremita no Himalaia, Ed. Pensamento


Certa tarde, enquanto estávamos sentados nas proximidades da margem de um pequeno regato, o Iogue Pranavananda come­çou a falar acerca do seu professor, o Swami Jnanananda:

— Meu Mestre pertence a uma rica família que mora em Andhra, na zona nordeste de Madras. Com cerca de dezessete anos de idade ele teve um sonho no qual apareceu-lhe uma Grande Alma e pediu-lhe que deixasse o lar, mas tal pedido gerou um conflito íntimo no seu ser e ele não obedeceu de pronto. A Grande Alma apareceu-lhe novamente num segundo sonho, repetindo o pedido, mas desta vez o conflito íntimo tornou-se mais agudo do que nunca, sem que ele pudesse definir-se entre o seu desejo de obedecer e a sua esposa. Uma vez mais ele vacilou, faltando-lhe coragem para romper os laços de família. No entanto, A Grande Alma veio ter com ele uma terceira vez, tocou-o num sonho, e deu-lhe então forças para obedecer. Assim sendo, ele deixou o lar e, renunciando ao mundo, desapareceu em procura da verdade. Viajou para o norte e para o oeste em procura de um professor. Alguns anos mais tarde, ao encontrar seu mestre, este último disse-lhe simplesmente: — A meta espi­ritual já está em tuas mãos.

"Ele percebeu o quanto era avançado espiritualmente o jovem. E isso foi comprovado, pois logo após, o meu reverendo Mestre entrou no estado mais elevado de transe espiritual, do qual emergiu um novo homem.

"No entanto, meu professor queria tornar a sua realização perfeita, firme e sem solução de continuidade, de modo que, para esse fim, veio para o Estado de Tehri e foi viver solitário em Gangotri, em 1923. Lá estando teve uma experiência que serviu para provar a força da sua conquista espiritual. Viu-se um dia frente a frente com um enorme tigre, o qual não fez nenhuma tentativa de atacá-lo, mas aquietou-se nas patas traseiras e que­dou-se a observá-lo, durante algum tempo, antes de embrenhar-se na mata e desaparecer.

"Meu Mestre permaneceu nas vizinhanças durante todo um inverno, quando nenhuma outra alma teria ousado fazê-lo por causa da neve, de três metros de altura, que sepultava toda a região. Durante toda a estação hibernal não era possível obter ali qualquer espécie de comida, mas as autoridades de Tehri conseguiram que os funcionários governamentais mais próximos enviassem suprimentos de quando em quando. Mas o que é de pasmar é que Swami Jnanananda insistiu em permanecer quase inteiramente nu durante toda a sua estada, não usando senão uma sumária tanga. Jnanananda vivia numa caverna aberta, sem porta e sem lareira. Quando lhe perguntavam como podia suportar nu tanto frio, ele dizia: — Diante da minha gruta em Gangotri eu costumava sentar-me numa pedra para meditar e entrar em Samadhi. Habituei-me às inclemências do tempo sem maiores dificuldades. Um dia senti necessidade de atirar fora todas -as minhas roupas, sem qualquer razão aparente. Senti que alguma força interior me instava. Essa força e o nome do Senhor torna­ram-me totalmente indiferente ao frio, que eu não sentia. —Imagine-o vivendo naquela região desolada e bravia, cercado apenas de neve e gelo, com grandes avalanchas desabando, de tempos em tempos, das encostas e ameaçando soterrá-lo. Sua única companhia era o silencioso Himalaia, os animais selvagens que por vezes se arriscavam a passar por ali e uns poucos habi­tantes das montanhas. Hoje, se perguntarmos ao homem que costumava trazer comida ao Swami, descobriremos o quanto ele aprendeu a amar essa grande alma, pois seus olhos se iluminam ao falar nela e seu coração se enche de júbilo. . . "

De repente, Pranavananda pára de falar. Seus olhos quase se fecham. Sua respiração torna-se agitada e estertorante. Ima­gino que vai ter um ataque. Mas não, logo ele se acalma e começa, através de estágios tranqüilos, a entrar em transe. Seu corpo mantém-se sereno e imóvel, a não ser pelo ligeiro movi­mento de erguer e baixar os ombros que acompanha a respiração.
Então dou-me conta de que uma modificação vital se operou na atmosfera. A misteriosa quietude que anuncia a chegada de um estado mais elevado de consciência ou de um ser superior invade o ar. Percebo de pronto que algo importante aconteceu, de modo que faço uma meia volta a fim de olhar de frente o Togue, sento-me no chão; tranco as pernas em postura de medi­tação e tento ajustar-me mentalmente àquilo que estava por vir.

Perante o olho interior, a imaginação, a epífise — o nome pouco me importa — fulgura um rosto de homem, barbado, usando óculos e com um nariz largo. Um sorriso amigo lhe baila nos lábios. Recebo um olhar penetrante e, logo depois, uma mensagem.

Compreendo.

É o Swami Jnanananda. Usando dos poderes misteriosos que têm os homens da sua classe, ele projetou sua mente, sua alma, seu corpo sutil — uma vez mais o nome pouco me importa — sobre seu discípulo e eclipsou-o. No momento, os dois são espiritualmente unos, seus corações se mesclam. Este processo de autotransferência poderá surpreender o mundo, mas significa, em menor escala, a mesma coisa que Jesus quis dizer ao procla­mar: — Eu e meu Pai somos um só. — Este é o verdadeiro significado da condição de discípulo, seu segredo mais íntimo. Não é à toa que as tradições yogues da índia declaram que render-se ao Mestre é uma condição essencial, mas os tolos sem­pre puseram esta verdade no plano material e não conseguiram compreendê-la. Tudo aquilo que um verdadeiro Mestre exige do seu discípulo é uma íntima identificação consigo e não a entrega de bens materiais. Esta última é a marca registrada da charlatanice. A primeira é o atalho que elimina todas as longas e laboriosas disciplinas impostas por caminhos diferentes.

Durante meia hora nos mantivemos em completo silêncio, o discípulo eclipsado e eu. Procuro colocar-me em harmonia com as vibrações mais elevadas que agora dominam o ambiente. O mestre fala-me, sem se valer do uso de palavras, sem discursar, e eu me torno sensível e receptivo tanto quanto posso. O mundo exterior talvez não veja senão dois homens calados, um com os olhos semicerrados, outro com os olhos bem arregalados. Mas eu vejo uma presença sublime, cuja visita ergue-me provisoria­mente acima do meu pequenino ego.

Finalmente, meu companheiro retorna lentamente à sua condição normal, vira a cabeça e depois toca os olhos com o lenço. Continuamos sentados, não mais frente a frente, porém ambos imersos no mais absoluto mutismo. Mais tarde, quando nos levantamos e caminhamos juntos pelo vale, falamos acerca de outros assuntos e não tocamos naquele. A experiência vivida não constitui um tema fácil para conversação e deixamos que ela passasse sem ser mencionada.

De volta ao bangalô, pondero no breve esboço de vida do seu mestre que o meu amigo traçou para mim. Imagino-o em Gangotri, sentado-se para meditar, com talvez uma pele de corça estendida sobre um banco de gelo; a neve caindo por toda parte, quase soterrando-o; e os ventos cortantes uivando em torno. Como terá podido ele resistir à tremenda dureza da vida num ermo tão entorpecente? Como pôde suportar todo um inverno himalaio nas alturas de Gangotri, três mil e quinhentos metros no nível do templo, ultrapassada apenas pelo pico nevado que tem uma altitude de sete mil metros? Como sobreviveu a tudo, nu e sem lareira, e emergiu são e salvo da sua odisséia? (O médico oficial do Estado de Tehri, Dr. D. N. Nautyal, examinou Swami Jnanananda depois da sua volta e constatou que o seu pulso bate agora num ritmo de 30 pulsações inferior ao normal, segundo me declarou um funcionário do governo.)

O corpo obedece a determinadas leis naturais e qualquer outro homem que tentasse viver nu em condições semelhantes pereceria inevitavelmente. No entanto, Jnanananda parece haver interrom­pido o funcionamento de tais leis por um simples ato de sua vontade.

Qual é a explicação?

Encontro alguma indicação a respeito, parte em dois antigos volumes hindus e parte nas declarações de um asceta tibetano que, conheci em Buda-Gaya há alguns anos.

Um dos volumes é o Hatha Yoga Pradipika, um texto sâns­crito para uso daqueles que estão praticando o Controle do Corpo.

Descreve-se ali um rigoroso e difícil sistema de autodisciplina, envolvendo grandes esforços da vontade e prometendo por fim aos seguidores a capacidade de resistir a quaisquer mudanças de temperatura. O outro livro é o famoso Bhagavad Gita, um manual de Ioga e filosofia, que aconselha o praticante a recolher sua mente tão profundamente na direção do seu centro espiritual a ponto de esquecer as sensações físicas. "Coloque-se além dos opostos calor e frio", são as palavras ali impressas.

Dos tibetanos aprendi que entre os avançados ascetas do reino dos lamas existem numerosos que se especializam em gerar, por meio de determinados exercícios físicos e práticas mentais, um calor interno, uma sutil força ígnea a que chamam tomo. Nesses exercícios a respiração profunda se combina com esforços da vontade e da imaginação. Primeiro, canta-se uma invocação secreta a fim de receber o poder mágico requerido, a seguir o poder de visualização é conseguido e uma imagem subjetiva do fogo é produzida. Depois as chamas são avivadas, com o acompa­nhamento de respirações profundas, a partir da sua origem imagi­nária junto do órgão sexual e enviadas à cabeça. A teoria desses ascetas é que o fogo imaginário aquece o fluido sexual, o qual é a seguir distribuído pelas artérias e nervos através do corpo, por meio de outros exercícios. Por fim, o asceta entra num transe durante o qual permanece durante algum tempo com a mente focalizada na miragem do fogo por ele criada. Meu informante tibetano pretende que esta prática afugenta por completo qual­quer sensação de frio do corpo e permite ao homem sentir uma agradável quentura, mesmo estando ele enfiado no mais rigo­roso inverno. Na verdade, acrescentou, alguns ascetas sentam-se propositalmente em água gelada quando entregues à prática deste exercício.


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publicado por conspiratio às 22:15
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