Domingo, 5 de Outubro de 2008

ENTREVISTA COM O ALQUIMISTA FRANÇOIS TROJANI

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ENTREVISTA COM O ALQUIMISTA FRANÇOIS TROJANI

Uma Discussão sobre a Arte Oculta com um dos seus mais importantes praticantes na França

Por: Joseph Rowe

François Trojani, autor de um grande número de artigos densos, crípticos e altamente considerados sobre a alquimia, está longe de ser aquilo que as pessoas imaginam de um esotérico. Rotundo, jovial, informal, seu sotaque imediatamente trai a sua origem do Sul da França - uma fala e comportamentos mais evocadores daquelas tardes lânguidas à luz do sol, o cheiro de erva doce, lavanda e pastis no terraço de um café mediterrâneo do que a intensidade da busca alquímica.

Passeando pelas livrarias do Quartier Latin de Paris, eu havia ouvido falar de François anos antes de encontrá-lo. A 'La Table de Émeraude' é uma das livrarias esotéricas de maior prestígio na França, respeitada pelas suas coleções de manuscritos alquímicos raros e publicações. Conversando com os clientes e funcionários dali, fiquei muito interessado pelos comentários e opiniões que ouvi, que eram tão diferentes daquilo que havia me acostumado a ouvir em meios americanos semelhantes. Quase que dentro do raio da visão das esculturas alquímicas que povoam as paredes de Notre Dame e a Torre de São Jacques, logo do outro lado do Sena, falei com pessoas que, de vários modos e maneiras (algumas vezes bastante dúbias), aspiravam ou clamavam serem os herdeiros de uma das tradições esotéricas mais antigas do Ocidente. Lentamente, uma idéia de alquimia começou a formar-se, que era bastante diversa daquela com que havia me familiarizado, principalmente através das leituras de Jung.

Ali a discussão era vívida, com aquele amor gaulês típico por uma boa conversa, mas um dos poucos assuntos nos quais havia uma quase virtual unanimidade me parecia ser um profundo respeito por 'Trojani', cujas visitas ocasionais à livraria nunca areciamcoincidir com as minhas próprias. Freqüentemente ouvia comentários que, enquantocertas pessoas possuíam um conhecimento livresco outras faziam afirmaçõessensacionais, raras pessoas como Trojani eram praticantes autênticos da arte antiga. Foime até dito, por um amigo cuja inteligência e discriminação respeito muito, que Trojanié um dos maiores alquimistas europeus, um dos poucos que herdou a verdadeiratradição por inteiro.

Quando finalmente o encontrei, tudo deu certo, mas não por nada ligado à alquimia. Aconteceu de que ambos éramos amigos e admiradores de Stephen Jourdain, um extraordinário escritor místico que vive na Córsega nativa de François e que repudia toda tradição esotérica e religiosa. Mais ainda, François e eu logo descobrimos que compartilhávamos uma profunda e comum influência em nossas vidas, a partir dos escritos do sábio hindu, Ramana Maharshi.

No início de nosso contato, François não demonstrou nenhum interesse em discutir alquimia comigo. As poucas vezes que o ouvi discuti-la com alguém foram devotadas a pontos eruditos muito precisos. Certa vez lembro-me de estar presente quando um homem, de olhar intenso, defronte a várias pessoas dentro da livraria, fez-lhe à queimaroupa a pergunta se ele era realmente um praticante da alquimia.

François rapidamente retrucou que era e que a sua especialidade era fazer cerveja. Então embarcou numa discussão entusiasmada e erudita sobre técnicas de produção de cerveja, afirmando que uma boa cerveja apresenta efeitos sutis, únicos entre os produtos alcoólicos devido à presença de lúpulo, um parente muito próximo da maconha. Seu questionante rapidamente perdeu interesse e saiu da loja. Mas um par de outros freqüentadores deram continuidade à discussão e terminaram indo com ele até um bar próximo para saborearem um tipo especial de cerveja preparada por monges.

Freqüentemente discutíamos filosofia e sobre o nosso amigo mútuo, Steve Jourdain, assim como sobre outros assuntos ordinários. Somente depois que vim a conhecê-lo por um par de anos é que começamos realmente a discutir alquimia, sempre dando ênfase no aspecto filosófico. Ele insistia que a filosofia possui um significado mais dinâmico, ativo, incarnado' para os alquimistas do que no seu domínio mais público.

Quando primeiro discutimos sobre a possibilidade de realizar uma entrevista, fiquei com dúvidas, devido ao meu pequeno conhecimento sobre o assunto. Ele me surpreendeu dizendo que preferia assim: 'Quanto mais você sabe sobre ela, menor é a probabilidade de você fazer perguntas de interesse universal', explicou ele.

Não tinha a menor idéia de como julgar se François realmente era um mestre, um dos maiores alquimistas da França como diziam algumas pessoas. Não possuo uma opinião formada sobre isto e provavelmente nunca irei saber o suficiente para formar uma. Mas posso garantir a autenticidade de sua presença e a profundidade de sua apresentação da Filosofia Perene. Espero que algo desta irá ser transmitido nesta versão escrita da nossa conversa.



Joseph Rowe: François, qual é a diferença essencial entre a alquimia e a ciência moderna - por exemplo, o rebento da alquimia, a química?

François Trojani: Eu não diria que a química é um produto da alquimia, legítimo ou não! Isto não é para denegrir a química, mas para demonstrar que elas atuam em dimensões diferentes. A química, como tudo aquilo que agora é chamado de ciência, está exclusivamente preocupada com a dimensão horizontal: a causalidade material e eficiente, as manipulações reproduzíveis de fenômenos e etc. A alquimia, enquanto incluindo a dimensão horizontal, coloca um valor maior e prioridade na dimensão vertical.

Rowe: E qual é esta dimensão vertical?

Trojani: é a dimensão da interiorização e do significado no seu sentido mais profundo: o significado da vida, de qualquer vida, as questões sobre as relações entre o espírito e a matéria, o propósito e valor das nossas próprias ações - as perguntas, 'de onde viemos?', 'porque estou aqui?', 'quem sou eu?' Não estou querendo dizer que a alquimia fornece respostas precisas para essas perguntas, mas que ela atua numa dimensão de onde nascem essas indagações.

Rowe: Parece-me bastante com o tipo de perguntas que a ciência moderna tomou o máximo de cuidado para excluir de consideração.

Trojani: Sim, mas isto originalmente não era uma coisa má em si mesmo. A alquimia também inclui momentos quando o horizontal deve ser encarado, também, e isto pode ser importante, Mas quando a prioridade foi invertida, a ponto de que a dimensão horizontal não apenas precede mas eclipsa a vertical - bem, você acaba tendo um tipo de mundo que dispomos hoje. Neste tipo de mundo, não é de se surpreender que a alquimia seja considerada como uma superstição ou como uma precursora primitiva da ciência.

Rowe: Para muitas pessoas, incluindo eu mesmo, foi graças aos trabalhos de Carl Jung que a alquimia perdeu a sua imagem de uma velha pseudociência e foi apresentada como um caminho de auto-conhecimento.

Trojani: Sim, e Jung merece grande crédito por trazer isto à atenção do público. Entretanto devo dizer que os alquimistas reais apresentam grandes reservas sobre os escritos alquímicos de Jung.

Rowe: Que tipo de reservas? E poderia falar sobre aquilo que significa 'reais alquimistas'?

Trojani: Não estou aqui fazendo uso de qualquer ortodoxia ou dogma quando falo isto. Existem escolas bastante diversas de real prática alquímica, algumas das quais mal conheço, tal como a Chinesa. O que quero dizer ao falar de 'real alquimistas', neste contexto é mais simples do que possa parecer: quero indicar uma pessoa que não somente trabalha psicologicamente sobre si mesma, mas que também atua em nível de laboratório. Ou pelo menos respeita o trabalho de laboratório como sendo algo importante, mesmo que não tenha acesso a um. Jung não foi um alquimista real, porque tentou reduzir a alquimia ao seu aspecto psicológico. Sua compreensão deste aspecto foi excelente até certo ponto, mas havia muito mais na alquimia do que apenas psicologia.
Foi um reducionismo de sua parte tratar do trabalho em laboratório como uma coleção de símbolos do trabalho psicológico. Logicamente, é muito rico em símbolos, mas os verdadeiros símbolos são muito mais poderosos e vivos do que são atualmente considerados no pensamento moderno, até mesmo no de Jung.

Rowe: Mas ele devotou uma quantidade tremenda de energia e tempo ao estudo da alquimia; você concorda que ele compreendia o seu valor psicológico e significância. Assim, como explicaria o seu reducionismo?

Trojani: É complementar ao reducionismo científico quando ele considera a alquimia como sendo um tipo de proto-química. Penso que Jung estava muito preocupado em manter um mínimo de respeitabilidade científica. E quem iria culpá-lo por isso? Afinal das contas ele havia apenas acabado de se desligar de seu mentor e figura paterna, Freud, que foi um árduo defensor do cientificismo. Parte de suas desavenças estava relacionada com isto. Se Jung tivesse ido ao ponto de assumir algum tipo de trabalho de laboratório seriamente, ele seria visto como tendo se desviado completamente do final almejado, e o seu próprio trabalho teria sido ainda mais marginalizado do que foi.

Rowe: Você quer dizer um laboratório com retortas, enxofre e tudo o mais?

Trojani: Certamente. Jung nunca levou este trabalho a sério. Ele poderia, era um homem de grandes percepções e me foi dito que teve acesso a alguns alquimistas autênticos. Mas ele decidiu não dar ouvidos aos seus conselhos. Novamente, não há nada para se culpar, aqui. Jung tinha o seu papel para atuar e era um papel de grande valor. Aqui desejo apenas mostrar as limitações deste papel, não denegri-lo.
Rowe: O que acontece dentro do laboratório alquímico?

Trojani: Não existe coisa tal como um laboratório alquímico genérico. Nisto (e este é um segredo muito bem guardado), não existe um laboratório químico genérico: apenas dê-se o trabalho de visitar vários laboratórios químicos típicos. Você irá freqüentemente encontrar uma variedade espantosa de montagens e equipamentos, até mesmo para os mesmos experimentos sendo realizados dentro da mesma instituição. A diferença reside no fato de que para os químicos, essas variações são vistas como triviais. Ou talvez como algo apologético, como uma divergência de um certo ideal ou norma. Se as variações tornam-se significantes, elas podem ser encaradas com orgulho, como um novo padrão a ser imitado. Mas os alquimistas irão considerar as idiossincrasias do seu laboratório não como uma forma de desculpa ou como orgulho. Mais ainda, os eventos que ali ocorrem estarão visíveis para qualquer ser humano normal, outros estarão visíveis apenas aos iniciados e ainda outros, visíveis apenas aos alquimistas. Você entende o que estou querendo dizer?

Rowe: Penso que sim. Existe muito a ser digerido aqui. Mas ainda estou interessado em informações mais específicas sobre o que acontece dentro de um laboratório alquimico. Devo acreditar que o chumbo é transformado literalmente em ouro?

Trojani: Tais transmutações são possíveis. Elas ocorreram muitas vezes. Mas não posso dar alertas suficientes contra ficar fascinado com este tipo de fenômenos. Não somente isto iria fazer com que o objetivo fosse perdido, que é o da transmutação da pessoa inteira e assim, do universo, como tal fascinação com o poder também erode e degrada o processo alquímico fundamental. É tão ruim quanto estudar ioga para desenvolver poderes psíquicos, por exemplo. Primeiramente, pergunte-se do porquê de seu desejo de conhecer especificamente o que ocorre no laboratório de um alquimista. Se for por simples curiosidade, então caberá a alguma outra pessoa fazer isto para você. Existem muitos detalhes em livros, embora nem todos sejam confiáveis. De outro lado, se o seu desejo fundamenta-se num desejo sério de aprender mais sobre a alquimia como um caminho de auto-conhecimento, você também deverá começar através da leitura. Seja qual for a motivação inicial, o aprendizado sobre a alquimia situa-se num caminho de leitura e estudos. Não somente inclui o estudo do corpo alquímico mas de outros tipos de assuntos herméticos, assim como estudos comparativos de filosofia e religião. Não é uma disciplina para aqueles que não amam a pesquisa, pelo menos não em nossa era.

Entretanto, não existe nenhum currículo estabelecido. Você irá encontrar o seu próprio currículo naturalmente, se tiver um interesse suficiente e, se necessitar de orientação, ela irá aparecer. Se a sua intenção é pura e o seu estudo diligente, as portas irão se abrir de formas bastante surpreendentes. É extremamente útil aprender o Latim se deseja ir longe, embora espero que muitos mais textos sejam traduzidos para as línguas modernas. Quando o tempo estiver correto, você irá iniciar o trabalho de laboratório de sua própria maneira, talvez dispondo de um guia apropriado. Num certo ponto, recomendaria que certos cursos de química inicial, com ênfase em técnicas químicas laboratoriais simples, tais como misturas, derretimento e destilação. Habilidades ordinárias de laboratório, especialmente se elas são aquelas honradas ao longo do tempo e que não estão dependentes de tecnologia avançada do século vinte podem ser muito úteis para experimentos alquímicos. Mas a menos que haja uma necessidade específica de aprender, então o fato de eu contar aos leitores sobre os detalhes do laboratório alquímico seria apenas um estímulo à curiosidade ou sensacionalismo, tal como a descrição de exercícios espirituais específicos. Agora, sei que os americanos depositam grande fé em todos os tipos imagináveis de livros do tipo 'como fazer', à disposição do grande público, estou certo? Alguns deles, indubitavelmente são úteis. Quem sou eu para dizer que um livro alquímico do tipo 'como fazer' seria completamente impossível ou teria de necessariamente ser superficial ou mesmo nocivo? Mas não vejo como eu poderia avalizar e muito menos participar de um tal projeto; talvez eu seja excessivamente europeu...

Rowe: Duvido que a alquimia seja o meu caminho, mas obviamente estou muito interessado naquilo que ela tem a oferecer, como filosofia, mais do que como uma psicologia. Portanto, perdoe-me, François, se eu continuar a voltar para esta questão da transmutação literal do chumbo em ouro. Não quer dizer que estou dando vazão a uma curiosidade vulgar, mas é com o problema que com ela está associado: como é que isto poderia ser reconciliado com as impressionantes descobertas da ciência, baseadas na tabela periódica dos elementos e sua negação categórica de que tal tipo de transmutação seja possível sem se valer de uma tecnologia muito custosa e sofisticada? Embora lembro-me ter ouvido um químico falar que poderia ser possível fabricar-se ouro em pequeninas quantidades...

Trojani: Desculpe, mas na realidade este já foi transmutado em quantidades enormes, portanto isto é de pequeno consolo! Mas penso que compreendo o seu problema. Será que ajudaria se eu mostrasse que as operações alquímicas não funcionam primariamente no nível da tabela periódica com os seus números e massas atômicas, mas no próprio tecido do espaço-tempo. Veja, o espaço que o ouro 'ocupa' não é o mesmo tipo de espaço que o chumbo ocupa. A ciência moderna ignora isto completamente: para ela, espaço e tempo são constantes, exceto nas escalas em que a relatividade ou teoria quântica começam a atuar. Quando o alquimista fala em termos de chumbo sendo Saturno, o velho homem, associado com rigidez e distância e do ouro como o sol, Apolo, juventude, luz, proximidade, etc., ele não está sendo ingênuo ou pitoresco, mas está falando sobre a natureza do tecido do espaço-tempo, onde estas substâncias se manifestam na consciência. Ele está falando sobre um vasto panorama de evolução que parece ter precedido esta situação, incluindo o próprio observador do chumbo e do ouro e o seu status único naquele momento no espaço-tempo. Na alquimia, o trabalho sobre essas substâncias e o trabalho sobre a energia-matéria-espaço-tempo é trabalho em si mesmo. Isto não pode ser suficientemente enfatizado. A transmutação é um tipo especial de dobra ou desdobramento neste tecido, acaba envolvendo necessariamente o próprio experimentador.

Rowe: Isto está começando a se parecer com ficção científica!

Trojani: Bem, muitos dos conceitos utilizados pela ficção científica são de longa data familiares aos alquimistas. A alquimia está totalmente em casa com a viagem no tempo, tempo multidimensional, universos paralelos e assim por diante. Mas aqui também gostaria de avisar contra o ato de considerar tais fenômenos como objetivos em si mesmos. Eles representam apenas fases exemplares daquilo que chamamos de le Grande Ouvre (Nota do tradutor: 'Magna Opera' ou 'Grande Trabalho'. O gênero reverso de Ouvre nesta frase (le) é único na língua francesa; aqui está em masculino, em outros contextos é feminino). Este Trabalho não é para manipuladores, aqueles que buscam o poder ou aqueles que dão alta prioridade ao conforto. É redentor mas esta redenção conduz a um estremecimento das próprias fundações da alucinação consensual no que se refere ao espaço-tempo.

Rowe: A famosa Pedra Filosofal tem algo a ver com isto?

Trojani: Um papel essencial. Mas existem freqüentes enganos sobre a pedra. Como um objeto, um símbolo, ela meramente é uma fase num longo processo dinâmico: quando falamos da pedra, estamos realmente falando desta dinâmica. Quando falamos de símbolos, estamos também falando sobre fases desta dinâmica: fases muito ativas e reais, radicalmente diferentes daquele significado débil e aguado de 'símbolo' no contexto da linguagem moderna. Também, quando utilizamos a palavra philosophale - que não é para ser confundida com philosophique - queremos dizer algo que está muito mais incarnado do que aquilo que a 'filosofia' veio a representar nestes dois milênios.

(Nota do tradutor: a palavra philosophale em Francês é de significado exclusivamente alquímico e não tem nenhum equivalente em Inglês, embora em Português ainda disponhamos dessa distinção, nos termos: Filosófico e Filosofal).
Entretanto, a alquimia nem sempre foi philosophale. Na pré-história, culturas xamânicas, ela operou principalmente no reino vegetal e fui vastamente auxiliada pelas plantas psicotrópicas, que desempenharam um papel tremendo na evolução das linguagens. Posteriormente, as pedras começaram a ser utilizadas e algumas em particular, foram utilizadas para aperfeiçoarem os primeiros símbolos. A escrita nasceu disto. Ao mesmo tempo, a verdadeira filosofia alquímica, no sentido que agora a conhecemos, começou a emergir.

Essa filosofia foi a matriz que deu nascimento à pedra dos filósofos, la grande cire (Nota do tradutor: literalmente significa 'a grande cera', e se refere a uma qualidade maleável, tal como a cera apresenta). Em certas ocasiões, a pedra pode ser utilizada numa fermentação com ouro ou prata, assim trazendo em jogo poderes transmutacionais enquanto a submetendo a uma retrogressão parcial de suas qualidades. Veja, nada é ganho sem um preço. É um erro grande e antigo pensar que o uso primário da pedra filosofal é na transmutação. A pedra apresenta um potencial muito maior e mais nobre do que meramente produzir transmutações ou elixires, que os arcanos menores também podem produzir. Não nos aproximamos da pedra no sentido 'de'. Nos aproximamos dela como o primeiro passo num ato de vigilância que é o primeiro ato sagrado de submissão neste caminho. A pedra filosofal é a manifestação concreta de solve et coagula sua identidade mística, como o enxofre. Ainda assim ela nem dissolve como o mercúrio, nem coagula, como o enxofre. Em essência é uma cura para a alucinação da morte e da corrupção, atuando diretamente na própria raiz da noção. Novamente, a pedra física é apenas uma fase desta cura. A longo prazo, os processos de laboratório mostram uma estranha indiferença frente às nossas estratégias e esperançosas expectativas. Grandes descobertas alquímicas tem muito em comum com o miraculoso, o presente da graça.

Elas estão mais próximas àquilo que é chamado atualmente de 'singularidade' do que aos procedimentos sistemáticos baseados num conhecimento prévio, que pode aqui representar uma armadilha reducionista. A história da alquimia mostrou que a inocência e simplicidade podem obter sucesso onde as habilidades mais sofisticadas falham.

Parece que cada microfase do Trabalho contém a Grand Ouvre inteira: em algum sentido importante, o maior é capaz de ingressar dentro do menor. O trabalho lento e árduo no laboratório tem paralelos próximos e óbvios com os processos espirituais.

Estes podem ser sumarizados como a necessidade primal pelo alto (espírito, céu, paraíso) entrar em colaboração íntima com o inferior (corpo, terra, matéria). Então estudamos as maneiras e formas de extrair o espírito deste corpo e a possibilidade do artista acelerar este processo. Durante a sua sublimação, podemos descobrir que este mesmo espírito, ou fogo, desenvolve elementos estranhos, puros, insuspeitos a partir do corpo material a partir de muitas repetições. Também é observado que quanto mais purificado se torna o corpo, através de sublimações repetidas e condensações, mais ele concentra o espírito - até um certo limite. Repetidamente infundida através do corpo, essa substância pura, ou mercúrio, faz desenvolver um outro material profundamente entranhado que é seco, inflamável, rebelde e indestrutível. A isto foi dado o nome de enxofre. Isto é uma antevisão do poder da pedra como um polarizador, um magneto, um revelador do que há de melhor e pior num ser humano. Neste processo inteiro, uma relação harmoniosa com ritmos aparentemente exteriores é indispensável: a alternação do dia e noite, das estações, os movimentos dos planetas e estrelas, etc. A Grande Ouvre rompe a crosta das suposições envolvidas no externo versus interno, a objetificação do mundo, O mundo físico é demonstrável como sendo muito mais maleável do que a ciência imagina. Mas essa maleabilidade não é algum poder obtido pelo alquimista como um ser separado, um assunto humano a ser então replicado em objetos materiais equivalentes por outros seres humanos. A separação de sujeito e objeto é revelada como sendo ilusão. O Trabalho realiza o trabalhador - o experimentador e experimento constituem um todo inseparável.

Rowe: Isto certamente constitui uma ruptura da ciência ocidental tal como esta é praticada. A ciência procura separar escrupulosamente o experimentador do experimento.

Trojani: Certamente. E nenhuma quantidade de equipamento sofisticado poderá compensar uma visão de universo que é deformada por isto e outras suposições limitantes e na maioria das vezes, não-avaliadas.

Rowe: Tal como o dogma de que os experimentos devem ser reproduzidos por alguém mais, dadas as mesmas condições externas?

Trojani: Sim, realmente. A doutrina da replicação é um bom exemplo disto. Seu desrespeito da importância da individualidade do experimentador vai passo a passo com a fantasia do observador puro e desidentificado que não interage com o universo que ele está investigando.

Rowe: Mas aquele observador desidentificado ficou sob ataque sério pela física quântica. Imagino os alquimistas soltando um suspiro de alívio quando os resultados de Heisenberg foram publicados: 'Finalmente eles estão começando a compreender'.

Trojani: Bem, talvez, mas isto não representou um grande alívio. Admitindo a importância do observador apenas no campo subatômico é apenas um reles início de compreensão. A importância da física quântica é grandemente exagerada, acredito, quando é apresentada como uma modificação fundamental nos pontos de vista.

Rowe: E o que seria necessário para que a ciência se modificasse fundamentalmente?

Trojani: Antes de tudo, vamos deixar claro que não existe nada de inerentemente errado com a ciência enquanto uma prática limitada - nada inerentemente errado com a montagem de um jogo onde se busca a replicabilidade - contanto que seja feito no contexto de metas claras e limitadas. Não existe nenhuma razão para nos livrarmos da ciência, apenas fazer chegar às cabeças e corações das pessoas, sejam elas cientistas ou nãos, que apesar de toda a sua imensa utilidade potencial ela é muito limitada, muito fragmentada e representa um caminho não muito profundo para tentarmos investigar os mistérios do universo.

Rowe: Como é que uma ciência completamente nova se pareceria?

Trojani: Quem pode saber? Existem tantas respostas possíveis para isto, porque implicaria numa civilização diferente. Mas ficarei feliz de mostrar um ou dois fetiches científicos, cujo poder que exercem sobre as mentes gostaria de ver diminuídos. Por exemplo, a obsessão com o nível micro: como se descobrir o que está acontecendo com o menor dos componentes seja a chave para tudo!

Rowe: Charles Muses comparou isto com um grupo de cientistas vendo um drama na televisão e tentando prever o resultado final do drama ao estudarem os transistores e capacitores, etc., dentro do aparelho de televisão.

Trojani: (rindo) Que analogia devastadora! Mas algumas vezes penso que o problema é ainda mais profundo. 'E uma fixação não apenas em componentes ou elementos como representando o nível mais real de existência, mas também no próprio ponto geométrico como a base do espaço. Coisas tais como campos, planos, espaços são admitidos - mas de algum modo eles nunca parecem ser tão reais quanto os pontos ou vetores. Existem uns poucos cientistas, tais como Rupert Sheldrake, que tentam ir contra esta tendência, mas parece que ele foi marginalizado. Provavelmente teríamos de dispor de uma nova matemática juntamente com uma nova ciência, mas não sou a pessoa apropriada para dizer como esta seria.

Rowe: Rudolf Steiner sentia que a geometria projetiva era a chave para uma nova matemática, porque ela trata de linhas, planos e espaços como sendo tão fundamentais quanto pontos - até mais em alguns sistemas.

Trojani: Muito interessante. Não me aprofundei no pensamento de Steiner, mas não tenho dúvidas de que ele manteve uma grande afinidade com a alquimia. Mas voltando para como se pareceria uma nova ciência, penso num ponto muito mais fundamental - veja, apenas olhe para a sua linguagem, veja como é centrada em pontos! (Risadas) Um aspecto muito mais fundamental, digamos, é o estado do observador ao experimentar.

Ele teria de se tornar uma parte essencial de cada experimento. Aspectos tais como implicações éticas, valores e conseqüências, questões do significado da vida - realmente a dimensão vertical inteira - teriam de ser conduzidas de volta para o laboratório. Mas essa coisa que chamamos de 'ciência' não pode se modificar por conta própria. Ela é apenas uma expressão dos valores e suposições de uma civilização inteira, uma civilização que é basicamente o produto de uma secularização progressiva da cultura européia e da sociedade, num processo que se iniciou no final dos tempos medievais.

Rowe: Mas essa secularização foi em sua grande parte uma reação dirigida contra a violência e intolerância da Igreja, não foi? Inclusive com a perseguição de alquimistas.

Trojani: É verdade, mas esta acabou evoluindo para uma reação muito extremada. Ela dividiu a alma do homem ocidental e finalmente tornou a Igreja ainda mais estreita numa série de formas, enquanto que removendo as suas presas, assim dizendo. Ouvimos falar de 'fuga de cérebros' de um país para outro mas raramente ouvimos falar de uma 'fuga de cérebros' da vida religiosa para a secular. Isto aconteceu durante séculos. Os melhores talentos artísticos e filosóficos são raramente atraídos para vocações religiosas atualmente. Isto tornou a religião organizada terrivelmente medíocre. Isto por sua vez torna o acesso à dimensão vertical ainda menos disponível, porque foi, ou pelo menos tem sido, suprido pela religião, que sempre forneceu tal acesso para a grande maioria das pessoas. Essa divisão da alma ocidental agora se espalhou para toda a humanidade.

Vemos o mesmo tipo de fragmentação em todo o mundo, com o aumento do fundamentalismo, sempre como uma reação contra o modernismo. Mas junto com essa tendência reacionária, temos uma modificação na consciência, onde uma redescoberta da dimensão vertical está tornando-se possível para muitos indivíduos. Poderia ser que isto viesse a ocorrer num nível coletivo mais vasto? Não sei. Tendo a não ser muito otimista sobre isto: existem interesses poderosos que desejam manter as pessoas adormecidas. A religião teria de mudar radicalmente, talvez em algo que sequer viríamos a chamar de religião em qualquer sentido convencional.

Rowe: Qual é o papel da alquimia nesta mudança na consciência?

Trojani: Não seria um papel óbvio, visível. A alquimia sempre foi um caminho para poucos e não muitos. Isto é devido principalmente ao fato de que ela está fortemente focalizada na individuação, incluindo muita solidão e esforço intelectual, não porque seja superior a um caminho espiritual de direcionamento mais comunitário. Também, porque a alquimia não é uma religião. Ainda assim, ela pode e harmoniza-se bem com várias religiões e tradições místicas. Numa certa época ela poderá até mesmo vir a se harmonizar com a ciência! O caso mais famoso é o de Sir Isaac Newton, talvez o maior de todos os cientistas ocidentais, que praticou a alquimia e teve o mais profundo respeito por ela - e não porque ele era ingênuo e brincando com um passatempo, como os modernistas gostam de pensar.

Desafortunadamente isto tornou-se muito difícil ou até mesmo impossível de fazer na atualidade, assim como tornou-se quase impossível que astrólogos e astrônomos venham a colaborar juntos. Mas espero que o tempo agora esteja maduro para que os insights da alquimia possam ser apreciados, especialmente num sentido filosófico. Realmente este é o principal motivo da publicação de uma entrevista tal como esta. Isto seria totalmente improvável senão impossível sequer a uma geração atrás.

Rowe: Sinto que há alguma implicação política nisto.

Trojani: Realmente, e isto não deveria nos surpreender: 'O homem é um animal político'. Houveram uns poucos alquimistas que foram muito ativos na política. Mas as implicações políticas e sociais aqui são sutis demais para serem enquadradas nos estereótipos que tipificam os pensamento político da atualidade.

Rowe: Será que isto teria algo a ver com os ideais democráticos versus os elitistas? Ocorreu-me que o triunfo de um tipo de ciência que faz da replicabilidade um fetiche e da intercambiaedade de todos os observadores, pode de algum modo estar conectado com o avanço da democracia. Isto finalmente conduz para aquilo que René Guenon chamou de 'Reino da Quantidade'. Mas isso me oferece um problema, porque não consigo conceber o nosso retorno a algum tipo de ciência aristocrática, e ainda menos para um tipo de sociedade teocrática tal como a da Idade Média.

Trojani: Nem eu. Isto é uma pergunta difícil. Você sabe, ambas as tendências - e podemos também chamá-las de tendência democrática versus a elitista - sempre existiram no âmago da própria alquimia, algumas vezes coexistindo de forma harmoniosa, outras vezes, não. Existem muitos exemplos de alquimistas que sentiram o dever de utilizarem o seu conhecimento para ajudarem as suas comunidades, e outros que sentem que tais esforços sempre seriam fúteis no final, exceto talvez espontaneamente em níveis muito locais.

Rowe: Alguns exemplos? A maioria dos alquimistas parecem estar nessa última categoria, a mais elitista.

Trojani: Não necessariamente. Seria mais preciso dizer que a maioria dos alquimistas se distribuem em ambas as categorias numa época ou outra. Mas é verdadeiro que a alquimia é geralmente mais 'elitista' se a julgarmos pelos padrões modernos. Pelos padrões antigos, ela não seria assim considerada. Mas você me pede exemplos: aqui estão em número maior do que você possa imaginar. Um dos mais dramáticos foi Jacques Coeur, que literalmente salvou a economia da França após as devastações da Guerra de Cem Anos. Como reportagem de capa, ele apresentou-se como um riquíssimo especulador em metais preciosos. Houve outros exemplos proeminentes de alquimistas participando da vida política, assim como nas artes (especialmente na arquitetura, durante a construção das grandes catedrais), ciências, comércio, etc.

Rowe: Houve alquimistas sacerdotes?

Trojani: Ah, certamente. Sacerdotes, bispos e até mesmo um Papa.

Rowe: Um papa!

Trojani: Silvestre II, conhecido como Gerbert d'Aurillac (papa de 999 a 1003). Você mencionou perseguições, mas na realidade os alquimistas se saem melhor durante aqueles períodos de insanidade coletiva do que aqueles que apresentam visões mais heréticas, em parte devido à sua discrição secular, mas também devido à alta influência dos irmãos nas altas rodas. Mas isto não significa que os alquimistas vieram a se alinhar com os opressores. Estes geralmente não eram pessoas impulsionadas pela ambição.

Acabaram se elevando a altos cargos porque desejavam ser de serviço. Pode ser difícil de acreditar nisto nestes tempos tão cínicos, mas é verdade para a maioria dos casos.

Rowe: Bem, certamente posso ver o ponto de vista dos elitistas. É mais difícil ver que tais elevados serviços acabaram dando resultados a longo prazo, não? Quem quer que fosse, o legado do Papa Silvestre certamente não impediu as Cruzadas e a Inquisição de ocorrerem. E ser papa deveria constituir uma grande distração para as suas buscas alquímicas, para colocar o assunto de maneira suave.

Trojani: De certo modo, ambos pontos de vista estão corretos. Parece-me que deveríamos pensar em termos de uma dialética aqui, ao invés de 'que lado é o melhor?'. É verdade que o polo democrático, aquele de enfatizar o bem da comunidade aparentemente triunfou tanto na ciência quanto no governo. A repressão do polo elitista ou aristocrático faz apenas com que este retorne seguindo um caminho negativo. E isto não é de surpreender a partir do ponto de vista alquímico - o princípio do retorno do reprimido era conhecido milênios antes de Freud.

Rowe: Muito interessante. Poderíamos então dizer que isto é exemplificado pelas elites sombrias freqüentemente associadas com Máfias, que agora apresentam uma incrível influência tanto na ciência quanto no governo? Tanto nos Estados Unidos quanto na França temos o fenômeno do 'complexo militar-industrial' e uma indústria de armamentos muito poderosa que une tanto a ciência quanto o governo da pior forma possível.

Trojani: Temo que sim. Mas um tal parceira malévola não é algo surpreendente. Por centenas de anos, a ciência sistematicamente excluiu a dimensão vertical, que inclui a ética, entre outras coisas. Se a alquimia tem algo que poderia ser chamado de princípio político, este seria uma oposição fundamental ao desejo pelo poder sobre os demais.

Mas isto em si mesmo é o produto de uma certa atitude com respeito ao Universo. Veja, na alquimia nunca questionamos o universo de uma maneira impessoal ou geral; questionamo-lo como sendo um ser vivo. A filosofia moderna desconsidera isto como uma forma de 'animismo'. Ela prefere questionar o universo de uma maneira mecanicista e, logicamente, acaba obtendo respostas mecanicistas. Mas esta atitude vai ainda mais fundo. A alquimia coloca um grande valor em perguntas tais como 'O universo existia antes que eu o questionasse?' Ou ainda, 'Você existia antes desta pergunta que estou fazendo sobre Você?', onde se subtende que este Você não é apenas algum Deus abstrato, mas a totalidade da Criação, incluindo esta situação de agora, à minha frente, muito concreta e muito particular, em toda a sua aparência sensorial, seja no laboratório ou não. Tal questão não faz sentido para a mente moderna, mas é crucial para a alquimia.

Rowe: E sobre a noção que é atribuída pelo menos a alguns alquimistas, de que o próprio aparecimento da matéria densa, privada de consciência, é de algum modo a Queda da graça ou paraíso?

Trojani: Sim, essa é uma noção alquímica, mas ela não deve ser considerada como uma afirmação completa. A alquimia não deve ser confundida com certas formas de Gnosticismos ou outras filosofias dualistas de influência persa, com quem ela compartilha dessas idéias superficialmente. É verdade que algumas vezes pensamos na Queda como sendo o aparecimento da matéria, e esta como sendo algo externo à consciência. A própria matéria é um anjo caído, neste sentido - mas um anjo que pode ser redimido através da individuação. Uma vez que os seres humanos normalmente não dispõem de nenhum acesso ( ou acreditam não terem acesso) aos assuntos internos, assim dizendo, ela aparece como sendo um exterior opaco. Existe obscuridade, existe uma falta de diálogo. Mas não devemos parar aqui; temos de perguntar, 'Porque ocorreu esta Queda?' A matéria aparece como uma zona não-investigada de consciência perceptiva. Mas a quem ela assim se apresenta? Ramana Maharsi, quando perguntado porque Deus permitia que um mundo de matéria insensata existisse respondeu, 'Quem é aquele que vê a matéria insensata?'

Rowe: Estou contente que você mencionou Ramana Maharsi, que teve tamanha influencia sobre nós dois e em inumeráveis outros. Num lado, vejo uma tremenda afinidade entre a filosofia esotérica ocidental e os ensinamentos de Ramana sobre uma incessante auto-inquirição.

Trojani: Sim, é verdade. Seu ensinamento é magnífico porque sempre nos traz de volta ao essencial. Na linguagem alquímica, é o ato de encarar a escuridão da matéria, a escuridão da morte e para além da 'escuridão que é mais escura que a sombra', que nada mais é do que nosso ser mais verdadeiro ou Fonte. Esta poderia muito bem ser descrita como uma Luz infinita e ilimitada.

Rowe: Mas de outro lado, algumas vezes sinto que este ensinamento apresenta um viés sutil.

Trojani: Como assim?

Rowe: De algum modo me preocupa que Ramana Maharsi fale tão eloqüentemente da boneca de sal dissolvendo-se no oceano e ainda assim nada nunca é dito sobre como e porque o oceano gera aquela mesma boneca. E não é apenas com respeito a Ramana: sinto isto especialmente em qualquer ensinamento místico, especialmente nos oriundos do Oriente. Parece ser quase um tipo de desdém pela busca dentro de qualquer sentido de propósito ou significado evolucionário, no campo dos fenômenos manifestos; tudo é apenas maya, samsara. Muitos místicos são surpreendentemente desdenhosos ou até mesmo hostis a qualquer tipo de propósito evolucionário ou busca de significado, exceto ao de ver através da ilusão de tudo e todos. Por exemplo, a visão evolucionária de Teillhard de Chardin sofreu ataques tanto de cientistas materialistas como Jacques Monod como de místicos como Martin Lings. Eu esperava que a filosofia alquímica trouxesse alguma luz nisto.

Trojani: Eu também encontrei um certo viés nos ensinamentos Orientais, mas penso que seria mais preciso dizer, na forma que tais ensinamentos são interpretados e utilizados por nós no Ocidente. Acredito que a alquimia tem um ensinamento útil para oferecer aqui: o de solve et coagula. A dissolução e condensação, vazio e forma, não-manifesto e manifesto, implicado e explicado. Isto talvez seja a dialética mais poderosa de todas. O viés típico ocidental tende a estar no lado coagula da equação enquanto que o viés tipicamente oriental tende a estar sobre o lado solve. Mas isto não diminui o valor dos ensinamentos de Ramana. Este talvez seja a expressão mais pura e mais direta de solve neste século. O fato de que ele não se dirigiu ao lado coagula do mistério não tem de ser avaliado como uma deficiência. Afinal das contas, esta era em que vivemos necessita de uma boa dose de solve! Mas não devemos parar aqui, ou ficarmos apenas num dos lados da estória, sempre tentando resolver todas as questões com algum tipo de panacéia, dissolvendo cada pergunta em algum tipo de sopa cósmica. Mas - e isto necessita especialmente ser ouvido por aqueles de persuasão Oriental - o Eu também coagula, produz ilusões divertidas. Ele produz questões que não podem ser 'solvidas' tais como a pergunta das perguntas: 'Quem sou eu?' O valor infinito dessa pergunta reside em sua incessante formulação e contínuo aprofundamento ou seja, a sua feitura e não a sua 'solução'. Nessa questão, alcançamos o coração da filosofia alquímica, o segredo que protege-se a si próprio: a simultaneidade, a identidade de solve e coagula. Em outras palavras, somente ao abraçar totalmente a minha mortalidade, minha total dissolução é que poderei alcançar a imortalidade. A coagulação, aquele perguntar incessante e profundo de 'quem sou eu?' não é outra coisa que a própria solução da pergunta. A boneca de sal coagulado nada mais é do que a boneca de sal dissolvida.

Rowe: E sobre a evolução? Ela é apenas um aparecimento temporário de coagulação e dissolução?

Trojani: Sim e não. Sempre o mesmo grande paradoxo. Num certo sentido não existe nenhum lugar para a evolução 'ir'. Cada ganho na evolução linear é pago através de uma perda. Mas fique tranqüilo, a alquimia tem o maior respeito pela evolução, inclusive pela visão de Teilhard de Chardin. Entretanto, devemos superar a noção da evolução como sendo primariamente um processo que se desenvolve ao longo do tempo linear. Esta noção implica num processo infindável, infinitamente progressivo e linear ao longo do tempo - uma noção monstruosa e isenta de alma. Entre as pessoas de índole religiosa que estupidamente se opõem às grandes descobertas científicas que se relacionam com a 'evolução' existem algumas que estão reagindo inconscientemente à esta mesma idéia de tempo, mas não sabem como se expressarem. Existe um tempo super-dimensional, não linear de evolução, ainda assim não podemos nele ingressar conscientemente até que possamos abraçar e viver este aparente paradoxo em nossas próprias vidas. O intelecto, ou aquilo que de algum modo pode ser chamado ordinariamente de intelecto, não pode resolver este paradoxo. Ainda assim, este poderá ser solucionado pela nossa própria vida. Será através da nossa própria vida individual que a totalidade da Criação evolui; qualquer outro sentido conferido ao termo evolução será chulo. Num certo sentido, a evolução é a dinâmica, a harmonia inteligente de solve et coagula. Uma antiga expressão alquimica deste paradoxo é: 'do Uno, em direção ao Uno, através do Uno'.


Sobre o autor: Joseph Rowe é um escritor, músico e tradutor que viveu em Paris por oito anos. Esta entrevista foi feita em francês no final de 1995, traduzida, transcrita e editada com a supervisão de François Trojani.

Copyright: Revista Gnosis
Tradução: NoKhooja
Publicado no Tentáculo

http://nokhooja.com.br/temas/temas_diversos.htm
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publicado por conspiratio às 17:19
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