Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

A BASE SOCIAL DA PERCEPÇÃO DEVE MUDAR PARA SOBREVIVERMOS AGORA – SOBRE ENSONHAR - CASTAÑEDA

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— Quer dizer, Dom Juan, que o passado não tem valor para os feiticeiros modernos?

— Claro que tem valor. É do sabor daquele passado que não gosto. Pessoalmente detesto a escuridão e a morbidez da mente. Gosto da imensidão do pensamento. Entretanto, a despeito do que gosto e do que não gosto, tenho de dar crédito aos feiticeiros da Antigüidade, porque foram os primeiros a descobrir e a fazer tudo que conhecemos e fazemos hoje em dia.

Dom Juan explicou que o feito mais importante deles foi perceber a essência energética das coisas. Foi tão importante que se tornou a premissa básica da feitiçaria. Atualmente, depois de toda uma vida de disciplina e exercícios, os feiticeiros adquirem a capacidade de perceber a essência das coisas; uma capacidade que chamam de ver.

— O que significaria para mim perceber a essência energé­tica das coisas? — perguntei um dia a Dom Juan.

— Significaria que você percebe a energia diretamente. Se­parando a parte social da percepção, você perceberá a essência de tudo. Tudo que percebemos é energia, mas como não podemos perceber energia diretamente, processamos nossa percepção para que ela se adapte a um molde. Esse molde é a parte social da percepção, que você precisa separar.

— Por que preciso separá-la?

— Porque ela reduz deliberadamente o âmbito do que pode ser percebido, e faz com que acreditemos que o molde em que enquadramos nossa percepção é tudo o que existe. Estou conven­cido de que, para o homem sobreviver agora, a base social de sua percepção deve mudar.

— O que é essa base social da percepção, Dom Juan?

— A certeza física de que o mundo é feito de objetos concre­tos.

Chamo isso de base social porque todo mundo empenha um grande esforço em levar-nos a perceber o mundo do jeito que percebemos.

— Então como deveríamos perceber o mundo?

— Tudo é energia. Todo o universo é energia. A base social de nossa percepção deveria ser a certeza física de que a energia é tudo que existe. Deveria ser realizado um esforço gigantesco para levar-nos a perceber energia como energia. Então teríamos as duas alternativas à mão.

— É possível treinar as pessoas a fazer isso? — perguntei.

Dom Juan respondeu que era possível. E que era precisamente isso que ele estava fazendo comigo e com seus outros aprendizes. Estava nos ensinando um novo modo de perceber; primeiramente fazendo com que notássemos que processamos nossa percepção para adaptá-la a um molde e, em segundo lugar, empurrando-nos para que percebêssemos diretamente a energia. Assegurou-me que esse método era muito parecido com o que é usado para ensinar a perceber o mundo cotidiano.

Dom Juan achava que a armadilha de processar nossa percepção para que se adapte a um molde perde sua força quando percebemos que aceitamos esse molde, como herança de nossos ancestrais, sem nos preocuparmos em examiná-lo.

— Para a sobrevivência de nossos ancestrais deve ter sido
absolutamente necessário perceber um mundo de objetos duros, com valores positivos ou negativos — disse Dom Juan. — Depois de eras percebendo as coisas desse modo, somos agora forçados a acreditar que o mundo é feito de objetos.

— Não posso conceber o mundo de outro modo, Dom Juan, reclamei.
Esse é inquestionavelmente um mundo de objetos. Para provar só precisamos tropeçar neles.

— Claro que é um mundo de objetos. Não estamos discutindo
isso.

— Então, o que você está dizendo?

— Estou dizendo que em primeiro lugar este é um mundo de energia, e depois um mundo de objetos: Se não partirmos da premissa de que este é um mundo de energia, nunca poderemos perceber a energia diretamente. Seremos sempre impedidos pela certeza física do que acabamos de mostrar: a dureza dos objetos. Para mim seu argumento era mistificador demais. Naqueles dias minha mente se recusava por completo a considerar qualquer alternativa à compreensão do mundo com a qual eu era familiari­zado. As afirmações de Dom Juan e as questões que ele formulava eram propostas exóticas que eu não conseguia aceitar, mas que tampouco podia recusar.

— Nosso modo de perceber é o modo do predador — ele me disse uma ocasião. — Um jeito muito eficiente de avaliar e classificar a comida e o perigo. Mas não é o único jeito que temos de perceber. Há outro modo, aquele com o qual estou familiarizando você; o ato de perceber diretamente a essência de tudo, da própria energia.

"Perceber a essência de tudo irá nos fazer compreender, classificar e descrever o mundo em termos completamente novos, mais emocionantes e mais sofisticados." Isso era o que Dom Juan dizia. E os termos mais sofisticados aos quais aludia eram os que havia aprendido com seus predecessores; termos que correspon­diam a verdades da feitiçaria, que não têm fundamento racional nem qualquer relação com os fatos de nosso mundo cotidiano, mas que são verdades auto-evidentes para os feiticeiros que percebem diretamente a energia, e que vêem a essência de tudo.

Para esses feiticeiros o ato mais significativo da feitiçaria é ver a essência do universo. A versão de Dom Juan é que os feiticeiros da Antigüidade, os primeiros a ver a essência do univer­so, descreveram-na da melhor maneira. Disseram que a essência do universo lembra fios incandescentes, esticados até o infinito em todas as direções concebíveis; filamentos luminosos com uma consciência de si próprios impossível de ser compreendida pela mente humana.

Depois de ver a essência do universo, os feiticeiros da Antigüidade passaram a ver a essência energética dos seres humanos. Dom Juan afirmou que eles descreviam os seres humanos como formas cheias de brilho que lembravam ovos gigantes, e chama­vam-nos de ovos luminosos.

— Quando os feiticeiros vêem os seres humanos — disse Dom Juan — vêem uma gigantesca forma luminosa que flutua fazendo, enquanto se move, um sulco profundo na energia da terra; exatamente como se a forma luminosa tivesse uma raiz que fosse sendo arrastada.

Dom Juan tinha a impressão de que nossa forma energética muda com o correr do tempo. Disse que todo vidente que conhe­cia, inclusive ele próprio, via que os seres humanos tinham mais a forma de bolas ou mesmo de lápides do que de ovos. Mas, de vez em quando, e por algum motivo que desconhecem, os feiticeiros vêem uma pessoa cuja energia tem a forma de um ovo. Talvez as pessoas que hoje em dia têm a forma de ovo sejam mais parecidas com as pessoas da Antigüidade, foi o que Dom Juan sugeriu.

No transcorrer de seus ensinamentos, Dom Juan discutiu e explicou repetidamente o que ele considerava a descoberta deci­siva dos feiticeiros da Antigüidade. Chamou-a de característica crucial dos seres humanos, como bolas luminosas: um ponto esférico de brilho intenso, do tamanho de uma bola de tênis, permanentemente alojado dentro da bola luminosa, emparelhada com sua superfície, cerca de sessenta centímetros atrás da omo­plata direita da pessoa.

Como eu tinha dificuldade em visualizar na primeira vez em que Dom Juan descreveu aquilo, ele me explicou que a bola luminosa é muito maior do que o corpo humano; que o ponto de brilho intenso faz parte dessa bola de energia; e que está localizado na altura das omoplatas, à distância de um braço a partir das costas da pessoa. Disse que os antigos feiticeiros deram-lhe o nome de ponto de aglutinação, depois de ver o que ele faz.

— O que faz o ponto de aglutinação? — perguntei.

— Faz com que percebamos. Os antigos feiticeiros viram que, nos seres humanos, a percepção é aglutinada ali, naquele ponto. Ao ver que todos os seres humanos têm um ponto brilhante como esse, os feiticeiros antigos conjecturaram que a percepção em geral deve acontecer naquele ponto, de algum modo pertinente.

— O que os antigos feiticeiros viram, fazendo-os concluir que a percepção acontece no ponto de aglutinação?

Ele respondeu que, primeiro, eles viram que dos milhões de filamentos de energia do universo que passam pela bola luminosa, apenas um pequeno número passa diretamente através do ponto de aglutinação, como é de se esperar devido ao seu pequeno tamanho em relação ao todo.

Em seguida eles viram que um brilho esférico extra, ligeira­mente maior do que o ponto de aglutinação, estava sempre rodeando-o, intensificando grandemente a luminosidade dos filamentos que passavam diretamente por aquele brilho.

E finalmente eles viram duas coisas. Uma, que o ponto de aglutinação dos seres humanos pode se deslocar do ponto onde está geralmente localizado. E duas, que quando está em sua posição habitual, a percepção e a consciência parecem ser normais, julgan­do-se pelo comportamento normal dos indivíduos que estão sendo observados. Mas quando seu ponto de aglutinação e a esfera de brilho ao redor estão numa posição diferente da habitual, seu comportamento incomum parece ser a prova de que sua consciên­cia é diferente, e de que estão percebendo de modo não-familiar.

A conclusão a que os feiticeiros antigos chegaram é que, quanto maior o deslocamento do ponto de aglutinação, mais incomum será o comportamento conseqüente e, claro, a consciên­cia e a percepção conseqüentes.

— Observe que quando falo de ver, sempre digo "tendo a aparência de", ou "parecia" — alertou-me Dom Juan. — Tudo que vemos é tão especial que não há como falar a respeito, a não ser comparando com algo que nos seja familiar.

Ele disse que o exemplo mais adequado dessa dificuldade é o modo como os feiticeiros falam do ponto de aglutinação e do brilho que o rodeia. Descrevem-nos como brilho, e no entanto não pode ser brilho, porque são vistos sem os olhos. Eles têm de descontar a diferença e dizer que o ponto de aglutinação é um núcleo de luz, e ao redor dele existe um halo, um brilho. Dom Juan lembrou que somos tão visuais, tão regulados por nossa percepção de predador que tudo que vemos deve ser descrito em termos do que o olho do predador normalmente vê.

Dom Juan disse que, depois de verem o que o ponto de aglutinação e o seu brilho parecem estar fazendo, os feiticeiros antigos tentaram uma explicação. Propuseram que o ponto de aglutinação nos seres humanos, ao concentrar sua esfera brilhante nos filamentos de energia que passam diretamente através dele, automaticamente e sem qualquer premeditação aglutina esses filamentos de energia numa percepção fixa do mundo.

— Como esses filamentos de que você fala são aglutinados numa percepção fixa do mundo? — perguntei.

— É possível que ninguém saiba — ele respondeu enfatica­mente. — Os feiticeiros vêem o movimento da energia, mas apenas ver o movimento da energia não lhes diz como ou por que a energia se move.

Dom Juan afirmou que, ao ver que milhões de filamentos de energia consciente passam através do ponto de aglutinação, os feiticeiros antigos postularam que, ao passar através do mesmo, eles se juntam, reunidos pelo brilho que o rodeia. Depois de ver que o brilho é extremamente fraco em pessoas que foram deixadas inconscientes ou que estão em vias de morrer, e totalmente ausen­tes nos cadáveres, eles se convenceram de que esse brilho é a consciência.

— E quanto ao ponto de aglutinação? Ele está ausente nos cadáveres?
Ele respondeu que não há qualquer traço de um ponto de aglutinação nos mortos, porque o ponto de aglutinação e o brilho ao redor são a marca da vida e da consciência. A conclusão inevitável dos feiticeiros antigos foi que a consciência e a percep­ção estão juntas e que estão ligadas ao ponto de aglutinação e ao brilho que o rodeia.

— Existe uma chance de que aqueles feiticeiros poderiam estar enganados sobre o que viam? — perguntei.

— Não posso explicar por que, mas não há como os feiticei­ros se enganarem sobre o que vêem — disse Dom Juan num tom que não admitia contestação. — Agora, as conclusões a que eles podem chegar a partir de sua visão podem estar erradas, mas isso acontecerá porque eles são ingênuos, não-cultivados. Para evitar esse desastre, os feiticeiros têm de cultivar suas mentes, do jeito que puderem.

Em seguida ele suavizou a voz e disse que, sem dúvida, seria infinitamente mais seguro para os feiticeiros permanecer apenas no nível de descrever o que vêem, mas que a tentação de concluir e explicar, ainda que apenas para si próprio, é grande demais para se resistir.

Os efeitos do deslocamento do ponto de aglutinação eram outra configuração energética que os feiticeiros da Antigüidade podiam ver e estudar. Dom Juan disse que, quando o ponto de aglutinação é deslocado para outra posição, um novo conglome­rado de milhões de filamentos luminosos de energia junta-se naquele ponto. Os feiticeiros antigos viam isso e concluíram que, como o brilho da consciência está sempre presente onde quer que esteja o ponto de aglutinação, a percepção é automaticamente aglutinada ali. Entretanto, devido à posição diferente do ponto de aglutinação, o mundo resultante não pode ser o nosso mundo cotidiano. Será outro.

Dom Juan explicou que os feiticeiros antigos eram capazes de distinguir dois tipos de deslocamento do ponto de aglutinação. Um era um deslocamento para qualquer posição na superfície ou no interior da bola luminosa; um deslocamento que chamavam de mudança no ponto de aglutinação. O outro era um deslocamento para posições fora da bola luminosa; chamavam-no de movimento do ponto de aglutinação. Eles descobriram que a diferença entre uma mudança e um movimento era a natureza da percepção que cada um deles permite.

Como as mudanças do ponto de aglutinação são deslocamen­tos dentro da bola luminosa, os mundos que eles engendram, não importando o quão bizarros, maravilhosos ou inacreditáveis pu­dessem ser, ainda eram mundos pertencentes ao domínio humano. O domínio humano são os filamentos que passam através de toda a bola luminosa. Os movimentos do ponto de aglutinação, por outro lado, já que são deslocamentos para posições fora da bola luminosa, captam filamentos de energia que estão além da com­preensão; mundos inconcebíveis sem nenhum traço de anteceden­tes humanos.

Naqueles dias o problema da confirmação representava sem­pre um papel fundamental em minha mente.

— Desculpe, Dom Juan — falei numa ocasião —, mas essa coisa do ponto de aglutinação é uma idéia tão distante, tão inad­missível que não sei como lidar com ela nem o que pensar a respeito.

— Só há uma coisa para você fazer — ele retorquiu. — Veja o ponto de aglutinação! Não é tão difícil de ver. A dificuldade está em romper o muro retentor que todos temos em nossas mentes e que nos mantém no lugar. Para rompê-lo, tudo que precisamos é de energia. Assim que temos a energia, ver acontece por si. O truque é abandonar nossa fortaleza de autocomplacência e falsa segurança.

— Para mim é óbvio, Dom Juan, que é preciso de muito conhecimento para ver. Não é apenas questão de ter energia.

— É apenas questão de ter energia, pode acreditar. A parte difícil é se convencer de que pode ser feito. Para isso você precisa de confiar no "Nagual". A maravilha da feitiçaria é que todo feiticeiro tem de provar tudo dentro de sua própria experiência. Estou falando sobre os princípios da feitiçaria não com a esperan­ça de que você os memorize, mas com a esperança de que você os pratique.

Sem dúvida Dom Juan estava certo sobre a necessidade de confiar. Nos primeiros estágios dos meus treze longos anos de aprendizado com ele, a coisa mais difícil para mim foi me afiliar ao seu mundo e à sua pessoa. Para mim essa afiliação significava aprender a confiar nele implicitamente e aceitá-lo sem preconcei­tos como o "Nagual".

O papel de Dom Juan no mundo dos feiticeiros era sintetizado no título que lhe foi concedido pelos seus pares. Ele era chamado de o "Nagual". Foi-me explicado que esse conceito refere-se a qualquer pessoa, homem ou mulher, que possua um tipo especí­fico de configuração energética, que para um vidente aparece como uma bola luminosa dupla. Os videntes acreditam que quando uma dessas pessoas entra no mundo dos feiticeiros aquela carga extra de energia transforma-se numa medida da força e da capa­cidade de liderança. Assim, o Nagual é o guia natural, o líder de um grupo de feiticeiros.

(...)

Eu aprendi a confiar implicitamente em Dom Juan como o Nagual, e isso, como ele afirmara, trouxe-me uma imensa sensa­ção de alívio, e uma capacidade maior de aceitar o que ele lutava para me ensinar.

Em seus ensinamentos ele colocava grande ênfase em explicar e discutir o ponto de aglutinação. Uma vez perguntei se o ponto de aglutinação tinha alguma coisa a ver com o corpo físico.

— Não tem nada a ver com o que normalmente percebemos como o corpo — disse ele. — Faz parte do ovo luminoso, que é nosso Eu energético.

— Como é que ele se desloca?

— Através de correntes de energia. Golpes de energia, origi­nados fora ou dentro de nossa forma energética. São em geral correntes imprevisíveis que acontecem aleatoriamente, mas no caso dos feiticeiros são correntes muito previsíveis que obedecem ao seu intento.

— Você pode sentir essas correntes?

— Todo feiticeiro sente. Todo ser humano sente, mas o ser humano médio vive muito preocupado com seus afazeres, para prestar atenção a esse tipo de sentimento.

— Como é a sensação dessas correntes?

— Como um pequeno desconforto; uma sensação vaga de tristeza seguida imediatamente por euforia. Como nem a tristeza nem a euforia têm um fundamento real, nunca as vemos como verdadeiros golpes do desconhecido, e sim como uma melancolia inexplicável e sem fundamento.

(...)

— As histórias dos feiticeiros dizem que, como eles conse­guiram esticar sua forma, também conseguiram esticar a duração de suas consciências. De modo que estão vivos e conscientes até hoje. Há histórias sobre aparecimentos periódicos na terra.

— O que você acha disso tudo, Dom Juan?

— Para mim é esquisito demais. Eu quero liberdade. Liberdade para manter minha consciência e ainda assim desaparecer na vastidão. Em minha opinião pessoal esses feiticeiros antigos eram homens extravagantes, obsessivos e caprichosos, que se tornaram presa de suas próprias maquinações.

"Mas não deixe que meus sentimentos pessoais o influen­ciem. Os feitos dos feiticeiros antigos não têm paralelos. No mínimo eles nos provaram que o potencial do homem não é coisa de se menosprezar.

Outro tópico das explicações de Dom Juan era que a unifor­midade e a coesão energética eram indispensáveis para o objetivo de perceber. Ele dizia que a humanidade só percebe o mundo do jeito que o percebemos porque compartilhamos a uniformidade e a coesão energética. Dizia que conseguimos automaticamente essas duas condições da energia enquanto somos criados; e que elas são um ponto tão pacífico que não notamos sua importância vital enquanto não ficamos diante da possibilidade de perceber outros mundos diferentes. Nesses momentos torna-se claro que precisamos de uma nova uniformidade e uma nova coesão ener­gética adequadas, para podermos perceber com coerência e tota­lidade.

Perguntei o que era uniformidade e coesão, e ele explicou que a forma energética do homem tinha uniformidade no sentido de que todo ser humano na terra tem a forma de uma bola ou um ovo. E o fato de que a energia humana aglutina-se na forma de uma bola ou de um ovo prova que ela tem coesão. Ele disse que um exemplo de uma nova uniformidade e uma nova coesão acontecia quando a forma energética dos feiticeiros antigos se tornava uma linha: cada um deles tornou-se uniformemente uma linha, e coe­sivamente permaneceu como uma linha. Uniformidade e coesão, num nível linear, permitiu que aqueles feiticeiros antigos percebessem um novo mundo homogêneo.

— Como se adquire a uniformidade e a coesão? — perguntei.

— A chave para isso é a posição do ponto de aglutinação, ou melhor, a fixação do ponto de aglutinação.

Ele não quis prosseguir. Então perguntei se aqueles feiticeiros antigos poderiam ter revertido sua forma linear, para que ela voltasse a ser um ovo. Ele respondeu que até um determinado ponto poderiam, mas que não o fizeram. E então a coesão linear se estabeleceu, e tornou a volta impossível. Ele acreditava que o que realmente cristalizou aquela linha de coesão e impediu que fizessem o caminho de volta foi uma questão de escolha e cobiça. O âmbito das coisas que aqueles feiticeiros podiam perceber e fazer, na forma de linhas de energia, era astronomicamente maior do que um homem comum ou um feiticeiro comum podia fazer ou perceber.

Explicou que o domínio do homem que tem a forma de uma bola de energia abrange os filamentos energéticos que atravessam o espaço contido nas fronteiras da bola. Normalmente não perce­bemos todo o domínio humano, mas talvez apenas um milésimo. Ele achava que, se levamos isso em consideração, torna-se apa­rente a enormidade do que os feiticeiros antigos faziam; eles se esticavam numa linha mil vezes maior do que o tamanho de um homem com a forma de bola de energia, e percebiam todos os filamentos de energia que passavam através daquela linha.


(...)

Outro feito monumental dos feiticeiros antigos, segundo Dom Juan, foi descobrir que o ponto de aglutinação se desloca facil­mente durante o sono. Essa descoberta levou a outra: que os sonhos estão totalmente associados a esse deslocamento. Os fei­ticeiros antigos viram que, quanto maior o deslocamento, mais incomum o sonho, e vice-versa: quanto mais incomum o sonho, maior o deslocamento. Dom Juan disse que essa observação levou-os a criar técnicas extravagantes para forçar o deslocamento do ponto de aglutinação, como ingerir plantas que produziam estados alterados de consciência; ou submetendo-se a situações de fome, cansaço ou tensão; e especialmente controlando os sonhos. Desse modo, e talvez sem nem mesmo saber, eles criaram a arte de sonhar.

Um dia, enquanto caminhávamos pela praça da cidade de Oaxaca, Dom Juan me deu a definição mais coerente do sonhar, segundo o ponto de vista de um feiticeiro.

Os feiticeiros vêem o sonhar como uma arte extremamen­te sofisticada. A arte de deslocar à vontade o ponto de aglutinação com o objetivo de ampliar o âmbito do que pode ser percebido.

Disse que os feiticeiros antigos ancoraram a arte de sonhar em cinco condições que eles viram no fluxo de energia dos seres humanos.

Um, eles viram que apenas os filamentos de energia que passam diretamente através do ponto de aglutinação podem ser aglutinados em percepções coerentes.

Dois, viram que, se o ponto de aglutinação é deslocado para outro posicionamento — não importando que fossem desloca­mentos minúsculos — filamentos de energia diferentes e estra­nhos começaram a passar através dele, envolvendo a consciência e forçando a aglutinação desses campos de energia estranhos numa percepção fixa e coerente.

Três, eles viram que, no decorrer dos sonhos comuns, o ponto de aglutinação facilmente se desloca sozinho para outro posicio­namento na superfície ou no interior do ovo luminoso.

Quatro, viram que o ponto de aglutinação pode ser movimen­tado para posicionamentos fora do ovo luminoso, para os filamen­tos de energia do universo exterior.

E cinco, eles viram que, através de disciplina, é possível cultivar e realizar, no decorrer do sono e dos sonhos comuns, um deslocamento sistemático do ponto de aglutinação.



O PRIMEIRO PORTÃO DO SONHAR


Como preâmbulo à sua primeira lição sobre sonhar, Dom Juan falou sobre a segunda atenção como um desenvolvi­mento. Começa com a idéia que nos vem mais como uma curiosidade do que como uma possibilidade real; transforma-se em algo que só pode ser sentido, como uma sensação; e finalmente evolui para um estado de ser, ou uma região de praticalidades, ou uma força superior que nos abre mundos além de nossas fantasias mais desvairadas.

Os feiticeiros têm duas opções para explicar a feitiçaria. Uma é falar em termos metafóricos, e contar sobre um mundo de dimensões mágicas. Outra é explicar suas atividades em termos abstratos, próprios da feitiçaria. Eu sempre preferia última, apesar de nenhuma das duas opções jamais satisfazer a mente racional de um ocidental.

Dom Juan me disse que, ao descrever metaforicamente a segunda atenção como um desenvolvimento, ele queria dizer que, sendo um subproduto do deslocamento do ponto de aglutinação, a segunda atenção não é algo que aconteça naturalmente: deve ser intencional, vendo-a de início como uma idéia e terminando por percebê-la como uma consciência fixa e controlada do desloca­mento do ponto de aglutinação.

— Vou ensinar a você o primeiro passo para o poder — disse Dom Juan, iniciando sua instrução sobre a arte de sonhar. — Vou ensinar como estabelecer o sonhar.

— O que significa estabelecer o sonhar?

Significa ter um comando preciso e prático sobre a situa­ção geral de um sonho. Por exemplo, você pode sonhar que está em sua sala de aula. Estabelecer o sonhar significa que você não deixa o sonho virar outra coisa. Você não salta da sala de aula para as montanhas, por exemplo. Em outras palavras, você controla a visão da sala de aula, e não deixa que ela desapareça enquanto você quiser.

— Mas é possível fazer isso?

— Claro que é possível. Esse controle não é diferente do controle que temos sobre qualquer situação em nossas vidas cotidianas. Os feiticeiros estão acostumados com ele e conse­guem-no sempre que desejem ou precisem. Para se acostumar com ele você deve começar a fazer uma coisa bastante simples. Esta noite, em seus sonhos, você deve olhar para as mãos.

Não falamos muito mais sobre isso na consciência de nosso mundo cotidiano. Em minhas recordações das experiências na segunda atenção, entretanto, descobri que tivemos uma troca mais do que extensiva. Por exemplo, eu expressei meus sentimentos sobre o absurdo da tarefa, e Dom Juan sugeriu que eu deveria encará-la em termos de uma busca divertida, em vez de solene e mórbida.

— Seja tão pesado quanto quiser ao falarmos sobre sonhar disse ele. — As explicações sempre pedem pensamentos profundos. Mas quando estiver sonhando, seja tão leve quanto uma pena. Sonhar tem de ser feito com integridade e seriedade, mas no meio de risos e com a confiança de quem não tem qualquer preocupação. Somente nessas condições nossos sonhos podem se transformar no sonhar.

Dom Juan me assegurou que havia escolhido aleatoriamente minhas mãos para que eu olhasse nos sonhos, e que seria válido olhar para qualquer outra coisa. O objetivo do exercício não era descobrir uma coisa específica, mas empenhar minha atenção sonhadora.

Dom Juan descreveu a atenção sonhadora como o controle que adquirimos sobre nossos sonhos depois de fixar o ponto de aglutinação em qualquer posicionamento novo para o qual ele tenha se deslocado durante os sonhos. Em termos mais gerais, ele chamava a atenção sonhadora de uma faceta incompreensível da consciência, que existe por si, esperando o momento de atraí-la, um momento em que lhe daremos um objetivo, uma faculdade oculta que todos nós temos em reserva, mas que nunca temos a oportunidade de usar.

As primeiras tentativas de procurar minhas mãos no sonho foram um fiasco. Depois de meses de esforços mal sucedidos desisti e reclamei de novo com Dom Juan sobre o absurdo dessa tarefa.

— Existem sete portões — ele disse em resposta. — E os sonhadores precisam abrir todos eles, um de cada vez. Você está diante do primeiro portão que precisa ser aberto caso deseje sonhar.

— Por que você não me disse isso antes?

— Teria sido inútil falar sobre os portões do sonhar antes de você bater de cabeça contra o primeiro. Agora você sabe que há um obstáculo e que precisa superá-lo.

Dom Juan explicou que há entradas e saídas no fluxo de energia do universo, e que no caso específico do sonhar há sete entradas experimentadas como obstáculos, que os feiticeiros cha­mam de sete portões do sonhar.

— O primeiro portão é o limiar que precisamos atravessar tornando-nos conscientes de uma sensação particular antes do sono profundo. Uma sensação como um peso agradável que não nos deixa abrir os olhos.

Chegamos a esse portão no instante em que nos conscientizamos de que estamos caindo no sono, suspen­sos na escuridão e na sensação de peso.

— Como me conscientizo de que estou caindo no sono? Existem etapas a seguir?

— Não. Não existem etapas a seguir. Só precisamos intentar que temos consciência de estar caindo no sono.

— Mas, como se intenta que estamos conscientes disso?

— É muito difícil se falar a respeito do intento. Eu, ou qualquer outra pessoa, pareceria idiota tentando explicar. Pense nisso quando ouvir o que tenho a dizerem seguida: simplesmente intentando, os feiticeiros intentam alguma coisa que os coloca no intento.

— Isso não significa nada, Dom Juan.

— Preste muita atenção. Algum dia vai ser sua vez de expli­car. A afirmação parece sem sentido porque você não a está colocando no contexto adequado. Como qualquer pessoa racional, você pensa que compreender está unicamente no âmbito da razão, de sua mente.

"Para os feiticeiros, como a afirmação que fiz tem a ver com o intento e com intentar, compreendê-la está no âmbito da energia. Os feiticeiros acreditam que, se intentarmos essa afirmação para o corpo energético, o corpo energético irá entendê-la em termos inteiramente diferentes dos termos da mente. O truque é buscar o corpo energético. Para isso você precisa de energia.

— Em que termos o corpo energético entenderia essa afirma­ção, Dom Juan?

— Em termos de um sentimento corporal, o que é difícil de descrever. Você precisa experimentar, para saber o que estou dizendo.

(...)


— Onde nós estávamos, Dom Juan? perguntei. — Foi um sonho? Um estado hipnótico?

— Não foi um sonho — ele respondeu. — Foi o sonhar. Ajudei-o a alcançar a segunda atenção, para que você compreen­desse o intento, não como um tema para o seu raciocínio, mas para seu corpo energético.
"Nesse ponto você ainda não pode compreender a importân­cia disso tudo, não só porque não tem energia suficiente, mas também porque não está intentando nada. Se estivesse, seu corpo energético compreenderia de imediato que o único modo de intentar é concentrando seu intento naquilo que você deseja inten­tar. Dessa vez concentrei-o, para você, em alcançar seu corpo energético.

— O objetivo de sonhar é intentar o corpo energético? — perguntei, subitamente com o poder de um raciocínio estranho.

— Pode-se colocar desse modo — ele disse. — Neste caso em especial, já que estamos falando sobre o primeiro portão do sonhar, o objetivo de sonhar é intentar que o seu corpo energético torne-se consciente de que você está caindo no sono. Deixe seu corpo energético fazê-lo. Intentar é desejar sem desejar, fazer sem fazer.

Aceite o desafio de intentar — prosseguiu ele. — Empenhe sua determinação silenciosa, sem qualquer pensamento, em con­vencer-se de que alcançou o corpo energético e de que é um sonhador. Isso irá automaticamente colocá-lo na posição de estar consciente de que está caindo no sono.

— Como posso me convencer de que sou um sonhador, quando não sou?

— Quando você ouve que precisa se convencer, imediata­mente se torna mais racional. Como pode se convencer de que é um sonhador quando sabe que não é? Intentar é as duas coisas: o ato de convencer a si próprio de que é de fato um sonhador, apesar de nunca ter sonhado antes, e o ato de ficar convencido.

— Então eu tenho de dizer a mim mesmo que sou um sonhador e tentar o máximo possível acreditar nisso?

— Não. Intentar é muito mais simples e, ao mesmo tempo, infinitamente mais complexo do que isso. Exige imaginação, disciplina e objetivo. Neste caso, intentar significa que você obtém um conhecimento inquestionavelmente corporal de que é um sonhador. Você sente que é um sonhador com todas as células do corpo.

Dom Juan acrescentou num tom jocoso que ele não tinha energia suficiente para me fazer outro empréstimo para o intento, e que a coisa a fazer era buscar sozinho meu corpo energético. Assegurou-me que intentar o primeiro portão do sonhar era um dos meios descobertos pelos feiticeiros da Antigüidade para chegar à segunda atenção e ao corpo energético.

Depois de dizer isso ele praticamente me expulsou de sua casa, ordenando que eu não voltasse até ter intentado o primeiro portão do sonhar.

Voltei para casa. E todas as noites, durante meses, fui dormir intentando com toda a força me conscientizar de que estava caindo no sono e ver minhas mãos nos sonhos. A outra parte da tarefa, convencer-me de que era um sonhador e que havia alcançado o corpo energético, era totalmente impossível.

Então, numa tarde enquanto cochilava, sonhei que estava olhando para minhas mãos. O choque bastou para me acordar. Aquele se mostrou um sonho especial que não pôde ser repetido. Passaram-se semanas e fui incapaz de me conscientizar de que estava caindo no sono ou de encontrar minhas mãos. Comecei a perceber, entretanto, que estava tendo em meus sonhos um vago sentimento de algo que eu deveria ter feito, mas que não conseguia recordar o que fosse. Esse sentimento ficou tão forte a ponto de me acordar constantemente durante a noite.

Quando contei a Dom Juan sobre minhas tentativas fúteis de atravessar o primeiro portão do sonhar, ele me deu algumas diretrizes.

— Pedir que um sonhador encontre um determinado item em seus sonhos é um subterfúgio — disse ele. — A verdadeira questão é conscientizar-se de que está caindo no sono. E, por mais estranho que possa parecer, isso não acontece ordenando-se a ficar cons­ciente de estar caindo no sono, e sim mantendo a visão da coisa que se está procurando no sono.

Disse-me que os sonhadores olham rápida e deliberadamente tudo que está no sonho. Se concentram sua atenção em algo específico, é apenas como um ponto de partida. A partir dali, os sonhadores passam a olhar outros itens do conteúdo do sonho, voltando ao ponto de partida quantas vezes for possível.

Depois de grande esforço realmente encontrei mãos em meu sonho, mas nunca eram minhas. Eram mãos que apenas pareciam me pertencer; mãos que mudavam de forma, tornando-se às vezes quase um pesadelo. Mas o resto do conteúdo dos sonhos estava sempre agradavelmente fixo. Eu quase podia sustentar a visão de qualquer coisa em que focalizasse minha atenção.

A coisa prosseguiu assim durante quatro meses, até um dia em que minha capacidade de sonhar mudou aparentemente por si própria. Eu não tinha feito nada de especial, apesar da determina­ção constante de me conscientizar de que estava caindo no sono e de encontrar minhas mãos.
Sonhei que estava visitando a cidade onde nasci. Não que a cidade com a qual sonhava se parecesse com aquela onde nasci, mas de algum modo eu tinha a convicção de que era. Tudo começou como um sonho comum, porém bastante vívido. Então a luz do sonho mudou. As imagens tornaram-se mais nítidas. A rua onde eu andava tornou-se notavelmente mais real do que um momento antes. Meus pés começaram a doer. Pude sentir que as coisas eram absurdamente duras. Por exemplo, ao bater contra uma porta, não somente experimentei a dor no joelho que bateu como também fiquei furioso por minha falta de jeito.

Caminhei realisticamente por aquela cidade até ficar exausto. Vi tudo que poderia ver se fosse um turista andando pelas ruas de uma cidade. E não havia qualquer diferença entre aquela cami­nhada onírica e as caminhadas que eu dava numa cidade que visitava pela primeira vez.

— Acho que você foi um pouquinho longe demais — Dom Juan disse depois de ouvir meu relato. — Só era necessária a sua consciência de estar caindo no sono. O que você fez é equivalente a derrubar uma parede só para esmagar um mosquito pousado nela.

— Quer dizer, Dom Juan, que eu fiz besteira?

— Não. Mas aparentemente você está tentando repetir algo que fez antes. Quando fiz seu ponto de aglutinação mudar, e nós terminamos naquela cidade misteriosa, você não estava dormindo. Estava sonhando, mas não dormindo. Isso quer dizer que seu ponto de aglutinação não alcançou aquele posicionamento através de um sonho normal. Eu forcei-o a se deslocar.

Você certamente pode alcançar a mesma posição através de um sonho, mas eu não aconselharia isso, por enquanto.

— É perigoso?

— E como! Sonhar tem que ser uma coisa muito sóbria. Não é possível se dar ao luxo de qualquer movimento em falso. Sonhar é um processo de despertar, de obter controle. Nossa atenção sonhadora deve ser sistematicamente exercitada, porque ela é a porta para a segunda atenção.

— Qual é a diferença entre a atenção sonhadora e a segunda atenção?

— A segunda atenção é como um oceano, e a atenção sonha­dora é como um rio que deságua nela. A segunda atenção é estar consciente de mundos inteiros, tão totais quanto o nosso, ao passo que a atenção sonhadora é estar consciente dos itens de nossos sonhos.

Ele enfatizou que a atenção sonhadora é a chave para cada movimento no mundo dos feiticeiros. Disse que entre a imensidão de itens de nossos sonhos existem interferências energéticas reais; coisas que foram postas em nossos sonhos por uma força estranha. Poder encontrá-las e segui-las é feitiçaria.

A ênfase que ele pôs naquelas afirmações foi tamanha que tive de perdir-lhe para explicar. Ele hesitou por um instante antes de responder.

— Os sonhos são, se não uma porta, um alçapão para outros mundos. Assim, os sonhos são vias de duas mãos. Por esse alçapão nossa consciência atravessa para outros reinos; e esses outros reinos mandam batedores para nossos sonhos.

— O que são esses batedores?

— Cargas de energia que se misturam aos itens de nossos sonhos normais. São fluxos de energia estranha que entram em nossos sonhos, e que nós interpretamos como itens familiares ou desconhecidos.

— Desculpe, Dom Juan, mas não consigo achar pé nem cabeça na sua explicação.

— Não consegue porque insiste em pensar nos sonhos em termos que você conhece: como aquilo que acontece conosco durante o sono. E estou insistindo em dar outra versão: o sonho é uma abertura para outras esferas de percepção. Através desse alçapão entram correntes de energias estranhas. A mente — ou o cérebro — capta essas correntes de energias e transforma em partes dos nossos sonhos.

Parou, obviamente para dar à minha mente tempo de absorver o que dizia.

— Os feiticeiros têm consciência dessas correntes de energia estranha — continuou. — Eles percebem-nas e tentam isolá-las dos itens normais de seus sonhos.

— Por que eles as isolam, Dom Juan?

— Porque elas vêm de outras esferas. Se as seguirmos até suas fontes, elas servirão como guias para áreas de um mistério tão grande que os feiticeiros estremecem à simples menção dessa possibilidade.

— Como os feiticeiros as isolam dos itens normais dos seus sonhos?

— Através do exercício e do controle de sua atenção sonha­dora. Num momento, nossa atenção sonhadora as descobre entre os itens de um sonho, concentra-se nelas e então todo o sonho se desmorona, deixando apenas a energia estranha.

Dom Juan se recusou a levar o tema adiante. Voltou a discutir minha experiência e disse que, no todo, tinha de ver meu sonho como minha primeira tentativa genuína, e que isso significava que eu conseguira alcançar o primeiro portão do sonhar.

Em outra discussão, numa outra época, ele trouxe abrupta­mente o assunto de volta. Disse:

— Vou repetir o que você deve fazer em seu sonho para atravessar o primeiro portão do sonhar. Primeiro deve focalizar sua vista em qualquer coisa que você escolha como ponto de partida. Em seguida vire-se para outros itens e dê olhadas breves. Focalize seu olhar no máximo de coisas que puder. Lembre-sede que, se você olhar rapidamente, as imagens não mudam. Em seguida volte para o item original, o primeiro para o qual você olhou.

— O que significa passar o primeiro portão do sonhar?

— Alcançamos o primeiro portão do sonhar ficando cons­cientes de que estamos caindo no sono ou tendo, como você teve, um sonho gigantescamente real. Depois de termos alcançado o portão, devemos atravessá-lo podendo manter a visão de qualquer item do sonho.

— Eu quase posso olhar fixo para os itens de meus sonhos, mas eles se dissipam muito rápido.

— É precisamente isso que estou tentando dizer. Para com­pensar a qualidade evanescente dos sonhos, os feiticeiros inven­taram o uso do item ponto de partida. Toda vez que você o isola e olha para ele, recebe um jorro de energia, de modo que no princípio não olhe muitas coisas em seus sonhos. Quatro itens já bastam. Mais tarde você pode alargar o alcance até poder abarcar tudo que quiser, mas assim que as imagens começarem a mudar e você sentir que está perdendo o controle, volte para o item ponto de partida e comece tudo de novo.

— Você acredita que eu realmente cheguei ao primeiro por­tão do sonhar Dom Juan?

— Chegou, e isso já é muito. Você vai descobrir, enquanto prossegue, como vai ser fácil sonhar agora.

Achei que Dom Juan estava exagerando ou me dando incen­tivo. Mas ele me assegurou que não.

— A coisa mais espantosa que acontece com os sonhadores disse ele — é que, ao chegar ao primeiro portão, também chegam ao corpo energético.

— O que, exatamente, e o corpo energético?

— É a contrapartida do corpo físico. Uma configuração fantasmagórica feita de pura energia.

— Mas o corpo físico não é feito também de energia?

— Claro que é. A diferença é que o corpo energético tem apenas aparência, não tem massa. Como é energia pura, ele pode realizar atos além das possibilidades do corpo físico.

— Como o que, por exemplo?

— Como se transportar num instante até os confins do uni­verso. E sonhar é a arte de afinar o corpo energético, de torná-lo flexível e coerente através do exercício gradual.

Através do sonhar condensamos o corpo energético até que ele se torne uma unidade capaz de perceber. Sua percepção, apesar de afetada por nosso modo normal de perceber o mundo cotidiano, é independente. Tem sua própria esfera.

— O que é essa esfera, Dom Juan?

— Essa esfera é a energia. O corpo energético lida com energia em termos de energia. Existem três modos através dos quais ele lida com a energia nos sonhos. Ele pode perceber a energia enquanto ela flui, pode usar a energia para lançar-se como um foguete até áreas inesperadas, ou pode perceber como perce­bemos comumente o mundo.

(...)

Ele reiterou que alcançar, com controle deliberado, o primeiro portão do sonho é um modo de chegar ao corpo energético. Mas manter esse ganho é uma questão que implicava apenas energia. Os feiticeiros obtêm essa energia reestruturando de modo mais inte­ligente a energia que possuem e que usam para perceber o mundo cotidiano.

Quando insisti para que Dom Juan explicasse com mais clareza, ele acrescentou que todos nós temos uma determinada quantidade de energia básica. Essa quantidade é toda a energia que possuímos, e usamos toda ela para perceber e lidar com nosso mundo envolvente. Repetiu várias vezes, para enfatizar, que em nenhum lugar existe mais energia para nós, e que, já que nossa energia disponível está ocupada, não sobra nem um pouquinho para qualquer percepção extraordinária como, por exemplo, so­nhar.

— Em que ponto isso nos deixa? — perguntei.

— Isso nos deixa tendo que arranjar energia por conta pró­pria, onde quer que possamos encontrá-la.

Dom Juan explicou que os feiticeiros têm um método de arranjá-la. Eles redistribuem inteligentemente sua energia cortan­do tudo que considerem supérfluo em suas vidas. Chamam esse método de caminho dos feiticeiros. Em essência o caminho dos feiticeiros, segundo Dom Juan, é uma cadeia de escolhas de comportamento ao lidar com o mundo, escolhas muito mais inteligentes do que aquelas que nossos pais nos ensinaram. Essas escolhas dos feiticeiros destinam-se a recompor nossas vidas alterando nossas reações básicas com relação a estarmos vivos.

— Quais são essas reações básicas?

— Existem dois meios de enfrentar o fato de estarmos vivos
disse ele. — Um é render-se a ele, seja concordando com suas exigências, seja lutando contra elas. Outro é moldando nossa situação particular de vida para que ela se adapte a nossas próprias configurações.

— Podemos realmente moldar nossa situação de vida, Dom Juan?

— Nossa situação particular de vida pode ser moldada para se ajustar às nossas especificações — insistiu Dom Juan. — Os sonhadores fazem isso. Acha uma afirmativa doida? Não é, se você considerar como nós conhecemos pouco nós mesmos.

Disse que seu interesse, como professor, era envolver-se por inteiro com os temas da vida e de estar vivo; isto é, com a diferença entre a vida — como conseqüência de forças biológicas — e o ato de estar vivo — como uma questão cognitiva.

— Quando os feiticeiros falam de moldar nossa situação de vida estão falando de moldar a consciência de estar vivo. Moldan­do essa consciência podemos conseguir energia suficiente para alcançar e manter o corpo energético, e com ele certamente podemos moldar a direção total e as conseqüências de nossas vidas.

Do livro de Carlos Castaneda, A ARTE DO SONHAR
publicado por conspiratio às 22:03
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